História
A história da Paciência: da Patience ao Windows
A Paciência tem um currículo estranho. Começou como um passatempo aristocrático de salão na Europa do século XVIII, passou um século como a companhia discreta das salas de estar vitorianas e então — por um acaso da história do software — virou o que talvez seja o jogo de computador mais jogado de todos os tempos. As cartas nunca mudaram. Tudo à volta delas mudou.
Esta é a história de como um jogo para um só jogador conquistou um bilhão de computadores, contada por seus quatro grandes capítulos: a Patience, a Corrida do Ouro, a Casa Branca e o Windows.
Norte da Europa, fim do século XVIII: as primeiras paciências
Ninguém inventou a Paciência numa data conhecida, mas o rastro em papel começa no norte da Europa no fim do século XVIII. As primeiras referências escritas aparecem em fontes alemãs e escandinavas da década de 1780 — uma antologia de jogos alemã publicada em 1783 descreve o Patiencespiel como um jogo competitivo em que os jogadores se revezavam, ou jogavam baralhos separados lado a lado, correndo para terminar primeiro. A versão solitária que conhecemos pode, na verdade, ter vindo depois.
Uma teoria popular liga esses primeiros layouts à cartomancia — a leitura da sorte com cartas, que varreu a Europa elegante nas mesmas décadas. A mecânica rima: distribua as cartas num padrão e veja se elas se resolvem. Se o jogo "saía", o presságio era bom. Os historiadores debatem quão literal é a ligação, mas o vocabulário da Paciência ainda carrega o eco — jogadores de hoje falam de uma distribuição "destinada a ser vencida", que é adivinhação em tudo menos no nome.
O que é certo é que o jogo se espalhou como as modas se espalham: pelas cortes, pelos salões e pelas famílias aristocráticas que transitavam entre eles. A lenda chega a pôr um baralho nas mãos de Napoleão durante o exílio em Santa Helena — provavelmente apócrifo, mas o fato de a história ter pegado diz quem estava jogando.
O século XIX: a Patience conquista a Grã-Bretanha e a França
Em meados de 1800 o jogo já havia cruzado para a França e a Grã-Bretanha e adquirido o nome que manteria por um século: Patience. Os franceses a chamavam de réussite — "êxito" —, que captura a mesma ideia pelo lado do otimista.
A Grã-Bretanha vitoriana a abraçou por completo. A Patience aparece nos romances da época com a mesma naturalidade que o chá; o mundo de salas de estar e longas noites de Charles Dickens era exatamente o habitat em que um jogo de carta solitário prospera. Cartas de baralho eram baratas, as noites eram longas, e a Patience não pedia de você nada além de uma mesa e um baralho.
A era também produziu a primeira literatura do jogo. Em 1870, Lady Adelaide Cadogan publicou Illustrated Games of Patience — amplamente considerado a primeira coletânea de regras de paciência em inglês. Passou por edição após edição e fez algo silenciosamente importante: fixou os jogos em texto impresso. Antes de Cadogan, um "jogo de paciência" era o que sua avó lhe ensinara. Depois dela, os jogos tinham nomes, layouts padrão e regras que você podia citar. Dezenas de imitadores seguiram, e por volta de 1900 a família de jogos de paciência registrados já se contava às centenas.
Em algum ponto da travessia do Atlântico, o jogo também ganhou seu nome americano. Na Grã-Bretanha ele continuou sendo "Patience" bem entrado o século XX; nos Estados Unidos, "solitaire" — do francês para solitário — prevaleceu. A divisão persiste até hoje: um livro de regras de Londres e um de Nova York podem descrever o jogo idêntico sob títulos diferentes, um enfatizando a virtude que o jogo exige, o outro a solidão que ele preenche.
Klondike e a Corrida do Ouro
Uma dessas centenas devoraria o resto. O jogo que os americanos simplesmente chamam de "solitaire" — sete colunas, compra do monte, construir dos ases para cima por naipe — tirou o nome da Corrida do Ouro de Klondike do fim da década de 1890. A história mais repetida diz que os garimpeiros no Yukon o jogavam ao longo dos longos invernos subárticos, e alguns relatos descrevem versões de casa de jogo em que os jogadores compravam um baralho e eram pagos por carta que conseguissem colocar nas fundações.
Qualquer que tenha sido seu trajeto exato pelos acampamentos de mineração, o nome pegou, e o Klondike entrou no século XX como a paciência padrão do mundo de língua inglesa. Ele tinha as qualidades de que um padrão precisa: uma distribuição rápida, regras simples e derrotas na medida certa para manter você distribuindo de novo.
Spider e o Presidente
O Spider é o irmão mais novo. Ele surge em texto impresso na década de 1940, um jogo de dois baralhos batizado pelas oito sequências de naipe que um vencedor precisa completar — uma para cada uma das oito pernas de uma aranha. Foi um jogo de connoisseur desde o início: 104 cartas, dez colunas e um formato mais próximo de uma longa escavação do que de uma distribuição rápida.
Seu devoto mais famoso dos primeiros tempos foi Franklin D. Roosevelt, cuja afeição pelo Spider foi relatada o bastante para virar parte da lenda do jogo. Há algo apropriado em um presidente em tempo de guerra relaxando com a paciência mais exigente do livro — o Spider recompensa exatamente o tipo de planejamento de longo prazo que paciências mais curtas nunca pedem.
No papel, porém, o Spider tinha um problema: embaralhar e distribuir dois baralhos completos à mão é genuinamente tedioso. Seria preciso uma máquina para libertar o Spider.
1990: o programa de treino de mouse que devorou o expediente
A máquina chegou em 1990. A Microsoft lançou o Windows 3.0 com um pequeno jogo de cartas intitulado simplesmente Solitaire — Klondike, desenhado em 16 cores. Foi escrito por Wes Cherry, um estagiário de verão, que ficou famoso por nunca ter sido pago por ele além do estágio. As costas das cartas foram desenhadas por Susan Kare, a artista por trás dos ícones originais do Macintosh.
O Solitaire não foi incluído como entretenimento, ao menos não oficialmente. Seu propósito declarado era ensinar uma geração de trabalhadores de escritório a usar o mouse — arrastar uma carta de uma pilha para outra é arrastar-e-soltar, praticado até parecer natural. Como software de treino, teve sucesso na hora. Como entretenimento, teve sucesso catastrófico: em poucos anos, pesquisas sobre computação de escritório encontravam regularmente o Solitaire entre os programas mais usados do Windows de qualquer tipo, e gestores perguntavam à Microsoft como removê-lo.
FreeCell e as 32.000 distribuições
A segunda paciência do Windows tinha raízes mais profundas do que a maioria dos jogadores imaginava. O FreeCell descende de um jogo que Paul Alfille programou em 1978 para o PLATO, o pioneiro sistema universitário de computadores — tornando-o um dos mais antigos jogos de carta de computador continuamente jogados em qualquer lugar. A inovação de Alfille era elegante: distribua cada carta virada para cima, acrescente quatro células livres para armazenamento temporário e, de repente, a paciência vira um jogo de puro cálculo em vez de sorte.
Jim Horne portou o FreeCell para a Microsoft, e ele chegou às massas com o Windows 95, carregando sua famosa biblioteca de 32.000 distribuições numeradas. Esses números criaram algo novo na paciência: um cânone compartilhado. Todo jogador do mundo podia tentar a mesmíssima distribuição, comparar notas e discutir a respeito. Um projeto na internet acabou por provar que cada uma das 32.000 distribuições originais é solucionável, exceto uma — a distribuição nº 11982, a mão invencível mais famosa da paciência.
O Spider tem a sua vez
O Spider entrou na família no pacote Windows 98 Plus! e depois chegou a todos com o Windows XP — onde ficou a um clique de cerca de um bilhão de computadores. O computador havia resolvido o único defeito real do Spider: a máquina embaralha 104 cartas instantaneamente e distribui as dez colunas sem reclamar. Liberto do tédio da era do papel, o jogo de connoisseur encontrou um público de massa, e para muitos jogadores da era XP o Spider simplesmente virou a paciência — a versão que levamos adiante nas mesas de Spider deste site.
Nos anos 2000, telemetria e estudos de uso apontavam para uma conclusão que teria espantado Lady Cadogan: as paciências do Windows, tomadas em conjunto, eram plausivelmente os jogos de computador mais jogados da história. Não os mais chamativos, não os mais lucrativos — apenas jogados em silêncio, bilhões de mãos, em mais máquinas do que qualquer jogo antes ou depois.
Hoje: a era do navegador
O capítulo atual pertence ao navegador. A Paciência não vem mais na caixa com o sistema operacional — ela vive em uma URL, carrega em um segundo e roda em qualquer dispositivo que esteja na sua mão. O trio clássico sobreviveu à transição intacto: Klondike para velocidade, FreeCell para lógica, Spider para profundidade. Se você quer ver quão diferente os três pensam, nossa comparação direta detalha qual jogo combina com qual jogador.
Duzentos e cinquenta anos depois, o apelo do jogo mal se moveu: um baralho embaralhado, um objetivo conhecido e a pergunta em aberto de se esta distribuição específica vai sair. Os cartomantes da década de 1780 o reconheceriam de imediato.